Criado num ambiente que valorizava a expressão artística, Lucas Lamenha foi, desde cedo, atraído pelo universo do desenho e da música. O seu interesse pela arte despertou ao observar a mãe desenhar em blocos de papel enquanto falava ao telefone. Já a paixão pela música nasceu durante as viagens em família, acompanhadas pelas melodias dos Beatles.
Aos 12 anos, o alagoano começou a sua formação musical, aprendendo teclado e, mais tarde, guitarra. Essa base levou-o a enveredar pelo mundo da publicidade, uma escolha que, no entanto, acabou por evoluir para algo inesperado. “A minha ideia inicial era formar-me e abrir uma produtora musical para comerciais, mas apaixonei-me por todo o lado artístico da profissão, especialmente pela área criativa, onde trabalhei ao longo da minha carreira”, explica Lamenha.
O ponto de viragem ocorreu em 2015, durante uma viagem à Europa, quando já atuava como diretor criativo e era dono da sua própria agência. Em Londres, ao ver uma obra de arte nas ruas de Shoreditch, percebeu que era altura de mudar. De regresso ao Brasil, comprou materiais e transferiu o seu universo criativo para as telas, iniciando um processo de evolução artística. “Nos primeiros dois meses após a viagem, trabalhei muito de forma experimental até chegar à minha primeira obra original, uma pequena tela de 20 x 30 cm, à qual dei o nome de ‘Platão Fox 1’, inspirada num livro de José Saramago que estava a ler e que trazia uma citação do filósofo na contracapa.”
Após encontrar o seu estilo, Lamenha começou a produzir e a publicar no Instagram, numa conta criada exclusivamente para o projeto. Em poucas semanas, as suas obras esgotavam-se rapidamente, e, seis meses depois, recebeu um convite de um curador inglês para expor individualmente em Londres. A partir daí, o reconhecimento aumentou, e a sua arte foi exposta e vendida nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Itália, na Espanha, na Áustria, na Suíça e no Taiwan, tornando-se o único brasileiro convidado a integrar a galeria.
Recentemente, Lamenha juntou-se ao seleto grupo de ilustradores que assinam uma capa da MIT Technology Review — uma publicação que, como ele, consolidou uma reputação de influência ao longo de 125 anos. Esta colaboração representa uma convergência entre duas entidades que, embora de universos distintos, partilham valores como a consistência, a originalidade e a busca incessante pela excelência.
“Fiz a capa a partir de referências que marcaram a história da revista ao longo destes 125 anos. Através do *storytelling* que caracteriza o meu estilo, tentei condensar os principais momentos e expressões relacionadas com o tema, incluindo a data de fundação, e elementos de tecnologia e ficção científica que já fazem parte do meu vocabulário visual. O fundo preto representa o espaço, inspirado numa coleção minha chamada ‘Spaceonism’. Os elementos coloridos representam a criatividade humana, essencial em qualquer área, mas especialmente nas artes e na ciência”, explica.
O seu “cubismo especial” ou “Spaceonism” — como prefere chamar — nasceu de uma inspiração da infância, quando assistia diariamente a Star Trek com o pai. Este foi mais um momento familiar que se tornou numa memória afetiva e numa referência central para os seus desenhos.