Portugal pode construir um Ecossistema de Startups Sustentável
Edição - Mar 2025

Portugal pode construir um Ecossistema de Startups Sustentável

As startups desempenham um papel essencial na dinamização económica, promovendo a inovação e modernização de setores tradicionais.

Em Portugal, um país historicamente assente em estruturas económicas convencionais, estas empresas têm sido cruciais para a diversificação do mercado e para a geração de emprego qualificado. No entanto, apesar dos avanços significativos, o ecossistema de startups enfrenta desafios estruturais que não podem ser ignorados.

Em 2024, o Startup & Entrepreneurial Ecosystem Report revelou que Portugal captou 448 milhões de euros em investimento, um crescimento de 134% face a 2023 (Fonte: Dealroom.co). Este aumento reflete a crescente atratividade do país para o empreendedorismo. Contudo, importa questionar a sustentabilidade deste crescimento, nomeadamente no que respeita à dependência de incentivos públicos e à escassez de capital disponível para as maiores rondas de financiamento. Estes são obstáculos que têm de ser abordados com maior intensidade do que aquela que temos visto ao nível das políticas públicas.

Embora haja capital disponível para fases iniciais, como seed e early-stage, a transição para estágios mais avançados (scaleup) continua a ser um entrave. O mercado de capital de risco em Portugal ainda é incipiente quando comparado com ecossistemas mais maduros, como a Alemanha ou o Reino Unido, tal como o Fundo Europeu de Investimento realçou em 2023.

Por este motivo é necessário garantir que as startups portuguesas conseguem competir globalmente sem dependerem exclusivamente de incentivos estatais e sem terem de deslocar as suas sedes para junto de financiadores estrangeiros, habitualmente norte-americanos. A melhor forma para o fazer é criando incentivos para que os investidores privados e institucionais locais com maior capacidade financeira apostem neste tipo de empresas e nos fundos de investimento especializados que investem nas mesmas.

Esta ideia não é nova. Em 2020, o Banco Mundial destacava no relatório Doing Business, ao referir que para se criarem novas oportunidades na economia é necessário facilidade – em todo o tipo de infraestruturas (ou seja, não só físicas, também de construção de um sistema de atuação) – para que este tipo de atores atuar nos ecossistema e criar novas oportunidades para negócios tem de ter condições favoráveis para o poder fazer.

Outra condicionante para o crescimento que se procura é a burocracia. Apesar de medidas já implementadas como o Empresa na Hora, a Lei das Startups e programas como o StartUP Visa e o Tech Visa, o ambiente regulatório continua a ser um fator limitativo. Os custos inerentes à abertura e funcionamento de uma empresa, nomeadamente os encargos administrativos e fiscais, assim como a rigidez de algumas leis laborais, dificultam a competitividade. Conforme a OCDE identificou, em março de 2023, no relatório “Ease of Doing Business Index”: “Embora a regulamentação responda a importantes objetivos de políticas públicas, pode também, inadvertidamente, desencorajar investimentos e criar barreiras à entrada ou à expansão quando é excessivamente rigorosa ou onerosa”.

Um outro desafio é a ligação entre startups, universidades e grandes empresas. Existem colaborações frutíferas, mas a transferência de conhecimento para o mercado ainda está longe de ser a mais eficaz. É necessário reforçar os mecanismos de integração entre centros de investigação e startups, garantindo que a inovação tecnológica resulte em produtos escaláveis e competitivos, conforme Relatório sobre o Futuro da Competitividade Europeia, elaborado por Mario Draghi, antigo presidente do Banco Central Europeu e publicado em setembro de 2025, identificou ao referir taxativamente; “”As ligações entre o ensino superior e o setor empresarial são fracas, e os investigadores têm poucos incentivos para se tornarem empreendedores.”

Por fim, a retenção de talento. Portugal tem atraído profissionais qualificados, mas ainda enfrenta dificuldades em manter os melhores perfis no país, devido a diferenças salariais face a outros mercados europeus – analisando os dados quanto à redistribuição de recursos no país nas bases do Eurostat, vemos que o país está abaixo da média europeia. Assim, confirmamos que o desafio passa por criar condições mais competitivas para que os talentos formados em Portugal permaneçam no ecossistema local.

Apesar destes desafios, já há muito que tem sido feito. A título de exemplo, a implementação de programas como o Business Abroad, que leva startups portuguesas a eventos internacionais, mostra-se como uma estratégia acertada para escalar. Além disso, basta olhar para os resultados mais macro: Portugal já tem vários “unicórnios” – empresas avaliadas em mais de mil milhões de dólares – com ADN português e que operam em Portugal.

A evolução do ecossistema depende de uma abordagem equilibrada: aliar incentivos públicos a um reforço do investimento privado e simplificar processos burocráticos. O caminho para um ecossistema verdadeiramente sustentável e globalmente competitivo exige um compromisso de longo prazo, tanto por parte do setor público quanto do privado. Mais do que nunca, é essencial continuar a discutir e melhorar as condições para que as startups portuguesas prosperem e consolidem o seu papel na economia nacional e internacional.

António Dias Martins é Diretor Executivo da Startup Portugal.

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