Há 30 anos, em 1994, foi fundada a Amazon Inc., uma “startup” que aproveitou o início da onda da internet e tornou-se, anos depois, uma das empresas mais valiosas do mundo. Na década seguinte, a proliferação destas “startups” criou as bases do que hoje chamamos de “era das Big Techs”. Google (1998) e Facebook (2003) nos EUA; e Tencent (1998), AliBaba (1999) e Baidu (2000) na China são exemplos de empresas visionárias fundadas nesse período de 10 anos, que tornaram a “revolução da internet” uma realidade.
Olhando para trás e tentando extrair/adaptar ensinamentos desse período histórico, conseguimos perceber que existia grande entusiasmo e um certo consenso de que a internet seria o futuro, mas havia uma multiplicidade de possibilidades e incertezas sobre os caminhos para se chegar lá. As grandes apostas da época, por exemplo, estavam em teses que posteriormente não se revelaram vencedoras, como os portais de conteúdo representados pelo Yahoo! e pela AOL.
Os caminhos da transição energética
De certa forma, o cenário atual das discussões sobre transição energética é semelhante ao das discussões sobre a internet nos anos 90: um certo consenso sobre a direção, mas muitas dúvidas sobre os caminhos mais promissores para as próximas décadas.
E para iniciar esta discussão, é preciso primeiro definir de que consenso estamos a falar: empresas de petróleo, do setor elétrico, de setores adjacentes como transportes, mineração, indústria química, finanças, tecnologia, construção civil, entre outros, concordam, em geral, com a visão de futuro da transição energética, representada pelos chamados “4 D’s”:
Descarbonização
Produzir e distribuir energia com uma menor pegada de carbono, considerando tanto as fontes renováveis, como solar, eólica e biomassa, como esforços de eficiência energética, neutralização de fontes fósseis e captura de carbono. Como exemplos, temos os painéis solares, iluminação e eletrodomésticos mais eficientes, biocombustíveis, tecnologias de captura de carbono e energia eólica, entre outros.
Descentralização
Tornar o sistema de geração de energia mais distribuído, com painéis solares residenciais, biodigestores e baterias estacionárias capazes de transformar residências, estabelecimentos comerciais e pequenas indústrias em “mini-centrais”, que consomem e geram energia para o sistema.
Digitalização
Aplicação de tecnologias digitais como Inteligência Artificial, data analytics, internet das coisas, blockchain entre outras que sejam capazes de aumentar a eficiência, assim como habilitar novos modelos de negócio para o setor energético.
Democratização
Garantir que todas estas melhorias tornem a energia de qualidade mais acessível e disponível para todos, especialmente para as populações mais vulneráveis. Também significa encarar a transição de forma justa, considerando o impacto no emprego e no rendimento das pessoas.
Embora haja um consenso em relação aos 4 D’s, os possíveis caminhos para os alcançar são diversos, e existem diferentes correntes a defender cada uma das muitas rotas tecnológicas. Estas vão desde soluções já estabelecidas, como solar, eólica offshore, biocombustíveis, captura de carbono e hidrogénio verde, até grandes promessas para o futuro, como fusão nuclear, geotermia, energia das marés e baterias térmicas.
Diferentemente da revolução da internet, no caso da transição energética há um fator adicional que a torna ainda mais complexa: os recursos necessários para este processo não estão distribuídos geograficamente de forma igual. Estamos a falar de sol, vento, biomassa, rios, reservas de petróleo e gás, minerais críticos… Cada país ou região possui características próprias, que irão determinar realidades diferentes para a sua transição energética rumo aos 4 D’s.
O MIT de olho na transição energética
Compreendendo este cenário, o MIT, através do seu braço de programas globais e da própria MIT Technology Review, identificou a oportunidade de criar no Brasil — e, futuramente, em Portugal — um grande palco de discussão sobre o futuro da energia. Assim surge o Energy Summit, o principal evento mundial sobre inovação e empreendedorismo em energia e sustentabilidade, que, na sua segunda edição, terá lugar em junho de 2025, no Rio de Janeiro.
Baseado na metodologia do programa de aceleração de regiões empreendedoras do MIT (MIT REAP), o evento reúne universidades, grandes empresas, governos, startups e investidores de risco, e já nasce com uma pergunta de investigação desafiadora que pode ajudar a direcionar os investimentos globais na transição energética de forma mais eficaz: quais serão os caminhos mais promissores para o futuro da energia nos próximos 10 anos e qual será o papel de cada um destes atores nos próximos 12 meses?
Esta edição da MIT Technology Review Portugal, procura explorar estas possibilidades com os maiores especialistas do mundo, não com a intenção de encontrar e apontar uma solução definitiva agora, mas de exercer o papel de mapa e farol para este grande momento da humanidade.
Não há como negar que a ambição é tão grande quanto o próprio desafio.