Não nos podemos dar ao luxo de interromper as pesquisas em geoengenharia solar
Edição - Mar 2025

Não nos podemos dar ao luxo de interromper as pesquisas em geoengenharia solar

Este não é o momento para desconsiderarmos esta estratégia no combate às mudanças climáticas.

Em dezembro de 2021, participei num encontro da União de Geofísica dos Estados Unidos em Nova Orleães, na cidade de Luisiana, onde 26 mil geocientistas reuniram-se presencial e virtualmente para partilhar as mais recentes descobertas sobre a Terra e a ciência climática. Entre essas pessoas, aproximadamente 100 estavam prestes a falar sobre investigação em geoengenharia solar — uma estratégia que envolve refletir uma parte da luz solar que chega à Terra para mitigar o aquecimento global.

A investigação sobre o assunto é limitada e tem registado pouco avanço nos últimos anos. Assisti a palestras feitas em salas de conferência praticamente vazias. Durante apresentações de pósteres científicos, vi a mesma ideia que já tinha observado num encontro da União de Geofísica dos Estados Unidos há cinco anos: a preservação do gelo Ártico com microesferas refletoras de vidro soprado (ou oco). O silêncio reinava na área destinada à intervenção climática. Já no corredor vizinho, onde decorriam apresentações sobre temas relacionados com a criosfera, as pessoas amontoavam-se (apesar da pandemia e das recomendações de segurança), ansiosas por ouvir falar sobre o Glaciar do Juízo Final, visto como um potencial desastre ambiental.

Foi neste cenário que, em janeiro de 2022, um grupo de mais de 60 investigadores experientes lançou o Acordo Internacional de Não Utilização da Geoengenharia Solar. O grupo argumenta que é difícil implementar regras ou políticas que garantam um tratamento justo e equitativo no uso ou controlo da tecnologia e que esta representa “um risco inaceitável”.

À primeira vista, um acordo de não utilização da geoengenharia solar pode parecer uma medida prudente. Uma vez que o conceito que a sustenta ainda está numa fase muito inicial e teórica, faria sentido impor uma moratória à sua utilização.

Afinal, a ciência ainda não está suficientemente avançada para compreender os efeitos de refletir a luz solar nos ecossistemas, no clima ou nos diversos aspetos da vida humana. No entanto, a iniciativa de propor um adiamento na adoção da geoengenharia solar não é nova. Cientistas de renome propuseram tal moratória há quase 10 anos na revista Science.

Infelizmente, desta vez, o acordo vai muito além de uma simples interrupção temporária da aplicação desta técnica. E isso é problemático, porque a geoengenharia solar pode, na verdade, trazer benefícios significativos. Poderia, por exemplo, compensar substancialmente o aumento da temperatura global e potencialmente atenuar sérios impactos secundários associados a esse aquecimento, como a redução da produtividade agrícola devido a condições climáticas extremas e o aumento da frequência e intensidade de furacões e tufões. Não sabemos tudo sobre os seus efeitos. Mas há um forte argumento humanitário para aprofundarmos mais o nosso conhecimento, mesmo que isso revele que as desvantagens superam as vantagens.

A proposta de não utilização da geoengenharia solar não consegue fazer uma distinção adequada entre investigação, desenvolvimento ou implementação. Parece ser uma tentativa velada (ou talvez nem tanto) de sufocar os avanços da investigação nesta área. Em 2021, os autores da recomendação escreveram uma carta para a revista Nature, contestando um artigo intitulado “Give research on solar geoengineering a chance” (“Dê uma oportunidade à investigação sobre geoengenharia solar”, em tradução livre para português). A sua posição? “Pedimos aos governos e às agências de financiamento que limitem a investigação sobre tecnologias de geoengenharia solar planetária.”

A recomendação de não utilização exige um compromisso das partes envolvidas com a proibição de experiências ao ar livre e a restrição das agências de financiamento nacionais de “apoiar o desenvolvimento” de tecnologias de geoengenharia solar, tanto dentro dos seus países como através de instituições internacionais. Além disso, propõe que os países se oponham “à futura institucionalização da geoengenharia solar planetária como uma opção política em instituições internacionais relevantes, incluindo o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas” (conhecido pelo acrónimo IPCC). Isso significa que, se este acordo for seguido, não poderemos saber como o principal organismo de cientistas climáticos avalia a ciência relacionada com a geoengenharia solar.

O grupo idealiza um futuro em que várias entidades, como fundações filantrópicas, universidades, associações científicas, organizações da sociedade civil, parlamentos e outros, manifestam o seu apoio à não utilização da geoengenharia solar. A ideia é criar uma pressão social tão intensa que nenhum grupo de investigação sério deseje focar-se na área, por receio de ser alvo de críticas. Tanto as fundações filantrópicas como as agências governamentais hesitariam em financiar tais investigações pelo mesmo motivo.

A intensa pressão social para interromper a investigação em geoengenharia solar não significa necessariamente o fim de todas as investigações neste campo. Implica, sim, que os investigadores que valorizam a transparência e a abertura na partilha de informações e conclusões podem optar por suspender as suas atividades, enquanto aqueles que decidem continuar podem ser menos recetivos às preocupações do público, pois receberão apoio de financiadores que não se importam com a opinião pública, como agentes privados ou militares. Com isso, é possível que não tenhamos acesso a todos os resultados das investigações. Regimes autocráticos poderiam assumir a liderança, e talvez tenhamos de depender da sua técnica e experiência no futuro, caso não consigamos eliminar o uso de combustíveis fósseis. Além disso, cientistas em países em desenvolvimento, que já estão em desvantagem em termos de participação nesta área, podem ver os seus recursos ainda mais reduzidos se as instituições internacionais e as fundações filantrópicas deixarem de fornecer o financiamento necessário.

A investigação na área exige financiamento público realizado através de agências nacionais de ciência. Isto pode contribuir para garantir vários aspetos essenciais, como assegurar o controlo e acompanhamento da sociedade sobre as atividades e decisões relacionadas com a investigação em geoengenharia solar e possibilitar o planeamento de programas de investigação em que cientistas sociais e académicos em políticas públicas sejam integrados desde o início, produzindo o tipo de investigação interdisciplinar crítica que o tema exige.

Além disso, o financiamento público pode ser estruturado para incentivar a cooperação científica internacional. Por exemplo, um estudo apresentado na União de Geofísica dos Estados Unidos analisou o impacto da geoengenharia solar na produção agrícola e contou com investigadores da Noruega, dos Estados Unidos, da Coreia do Sul e da China. Queremos continuar com este tipo de cooperação, não suprimi-la.

Talvez o ponto mais importante seja o facto de as agências de financiamento nacionais poderem estruturar programas de investigação que analisem de forma completa e detalhada os potenciais riscos e benefícios da geoengenharia solar. Sem essa abordagem sistemática, os resultados das investigações publicadas podem ser apenas uma seleção limitada de estudos, destacando apenas as conclusões mais impressionantes e positivas, o que poderia levar a uma perceção distorcida da eficácia ou segurança da geoengenharia solar.

Nenhum cientista se sente confortável com a perspetiva de implementar a geoengenharia solar, mas é fundamental ter uma equipa de pessoas experientes e competentes que compreendam tanto os aspetos científicos como os desafios de governação envolvidos nesta questão. Se desencorajarmos as pessoas de se especializarem nesta área, os resultados poderão ser insatisfatórios.

A criação de uma ciência de qualidade leva tempo. Se adiarmos a investigação no campo da geoengenharia solar até à década de 2030, podemos deparar-nos com um mundo onde o progresso na redução das emissões de gases com efeito de estufa tenha sido desigual e insuficiente para conter o aquecimento global, com as temperaturas ainda a caminho de um aumento de 3°C.

Nesse cenário, não podemos simplesmente esperar produzir de repente uma ciência rigorosa que nos ajude a determinar se o uso da geoengenharia solar é adequado. Como primeiro passo para avançar na investigação e no entendimento desta área, os Estados Unidos deveriam seguir as recomendações cuidadosamente estabelecidas pelo comité responsável por esta questão na Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos (também conhecida como NASEM ou Academias Nacionais) e financiar, desde já, um programa de investigação simples e criterioso.

Holly Jean Buck é professora adjunta de meio ambiente e sustentabilidade na Universidade Estadual de Nova York em Buffalo, e é autora de Ending Fossil Fuels: Why Net Zero Is Not Enough.

Nossos tópicos