Não é possível pensar na inovação da energia sem participação académica
Edição - Mar 2025

Não é possível pensar na inovação da energia sem participação académica

Há uma perspetiva pouco explorada do papel das universidades no processo de transição energética. Neste novo ambiente, a complementaridade das ciências e das humanidades é a chave para o sucesso.

O atual processo de transição energética, marcado pela substituição progressiva do domínio dos combustíveis fósseis por fontes de energia renovável, apresenta-se como um dos maiores desafios globais do século XXI.

Tais desafios transcendem as fronteiras tecnológicas e ambientais, incidindo sobretudo em questões geopolíticas, sociais e económicas. Nesse sentido, as universidades emergem como um pilar fundamental, não apenas pela capacidade de gerar inovação e influenciar a formação de profissionais qualificados, mas também pelo papel essencial na construção de políticas orientadoras para uma transição justa e sustentável.

Este terceiro ciclo de transição energética difere dos anteriores em pontos essenciais. Tanto a transição da lenha para o carvão mineral quanto a do carvão para os combustíveis fósseis foram impulsionadas pela transformação tecnológica dos meios de produção.

A Revolução Industrial, iniciada em meados do século XVIII, marcou o período em que o carvão começou a ser utilizado em larga escala, principalmente devido à invenção da máquina a vapor por James Watt, em 1769.

Essa transição foi influenciada por inovações tecnológicas, disponibilidade de recursos, mudanças económicas e políticas e, sobretudo, pelo desenvolvimento de infraestruturas, como ferrovias e redes de distribuição de eletricidade, que facilitaram o uso do carvão numa escala sem precedentes.

De modo análogo, o petróleo tornou-se indiscutivelmente o recurso energético dominante no mundo após a Segunda Guerra Mundial, impulsionado pela tecnologia dos motores de combustão. Esse avanço ocorreu, em grande parte, devido ao seu papel crítico na economia global e na militarização.

Já na transição atual, cujo foco é a redução dos impactos ambientais da economia baseada em combustíveis fósseis, o papel da tecnologia revela-se muito mais facilitador do que indutor.

Esta observação leva-nos a um ponto importante: no processo de transição energética atual, não há a mesma expectativa de crescimento do consumo energético global observada nos ciclos anteriores.

A partir do estudo sobre o crescimento do consumo energético global entre 1800 e 2022, é possível perceber que o consumo de lenha não foi eliminado com a entrada do carvão (em meados do séxulo XIX), tal como o carvão não deixou de ser consumido neste século. Pelo contrário, observa-se um crescimento considerável do consumo de carvão nos últimos 50 anos (a partir da década de 1970).

Diferente dos aproximadamente 1000% de crescimento observados no século XX, o consumo energético global neste século tende a ser mínimo.

Dados da Agência Internacional de Energia (IEA) estimam que, sem ações para redução de emissões, o crescimento do consumo até 2050 não deverá ultrapassar os 15%. Caso as promessas de redução das emissões prosperem, a estimativa aponta para uma redução no consumo total de energia até meados do século.

Neste contexto, os desafios da transição energética tendem a aproximar disciplinas como Economia, Relações Internacionais e Administração Pública e Empresarial das tradicionais carreiras tecnológicas.

A contribuição das universidades para os avanços tecnológicos da transição para fontes renováveis é indiscutível. Não há como pensar em inovações na geração fotovoltaica e eólica, assim como nas novas aplicações do hidrogénio, sem o suporte das Engenharias, em conjunto com a Química e a Matemática Aplicada.

Além disso, a Geologia continuará a ter um papel essencial, seja na busca por minerais críticos para a transição, seja na identificação de repositórios geológicos para o armazenamento de carbono e novos combustíveis.

Do mesmo modo, a Ciência de Dados será crítica para a digitalização dos novos modelos transacionais, garantindo eficiência e descentralização na oferta e no consumo de energia.

Por outro lado, a transição energética tem alterado a dinâmica da economia global, tanto ao nível micro como macro, gerando reflexos na distribuição de riquezas, na configuração das cadeias produtivas e no impacto sobre a desigualdade social.

A indústria do petróleo e gás é um dos principais motores da economia. A mudança disruptiva deste modelo de negócio, envolvendo a requalificação e a recolocação da força de trabalho, somada à construção de políticas para a redistribuição das externalidades desse processo, reforça uma perspetiva pouco explorada do papel das universidades na transição energética.

Neste novo ambiente, a complementaridade entre as ciências e humanidades (e por que não biológicas?) será a chave para o sucesso.

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