Perante o desafio de limitar o aumento da temperatura média global em 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais, a comunidade internacional (governos, empresas e sociedade civil) corre contra o relógio para concretizar as metas de redução da emissão de gases com efeito de estufa (GEE) estabelecidas pelo Acordo de Paris, em 2015.
Neste cenário, a substituição gradual dos combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão mineral) por fontes limpas e renováveis de energia (solar, eólica, biomassa, etc.) configura-se como a principal estratégia para a descarbonização rumo à chamada “economia verde”, mais eletrificada e tecnológica.
Trata-se, no entanto, da transição energética mais complexa da história. Diferentemente das anteriores (domínio do fogo, domesticação de plantas e animais e utilização de combustíveis fósseis), a atual terá de equilibrar na equação os custos climáticos e económicos para que as contas sejam sustentáveis.
Com 8 mil milhões de pessoas pouco dispostas a reduzir os seus níveis de rendimento e consumo, a procura mundial por energia tende a aumentar continuamente nas próximas décadas, enquanto a oferta precisa de crescer de forma sustentável – ou seja, menos poluente para a atmosfera e mais acessível para o bolso do consumidor final.
Acontece que as renováveis ainda não possuem a “musculatura” (densidade e eficiência) necessária para sustentar o atual padrão de consumo, baseado na queima intensiva de energia fóssil, que impulsiona mercados, indústrias, bens e serviços. Sem as fontes tradicionais, uma “mudança repentina” não virá sem o custo social da “pobreza energética”.
Basta pensar que a “passagem de testemunho” do carvão para o petróleo demorou 100 anos a concretizar-se, em 1960. E, mesmo assim, a sentença de morte do carvão não foi decretada. Pelo contrário: impulsionado pela China, Índia e Indonésia, que representam 40% da população mundial, o consumo deste energético atingiu um pico histórico em 2023.
Então, como convencer, por exemplo, os países do continente africano – que albergam cerca de 16% da população mundial, mas contribuem com apenas 4% das emissões globais de GEE – a manter intocadas no subsolo as suas reservas de petróleo, gás e carvão, para conter a ameaça dos danos climáticos?
“O pior tipo de poluição que existe é a pobreza”, alertou a então primeira-ministra indiana, Indira Gandhi, na primeira conferência do clima da ONU, em 1972. Na época, a afirmação já refletia a desconfiança do “Terceiro Mundo” relativamente às supostas intenções ocultas das potências industriais em “chutar a escada” do desenvolvimento.
Ainda hoje, o debate climático parece estar polarizado entre os que prescrevem o “receituário do clima” e os que denunciam uma manobra neocolonial. Recentemente, viralizou nas redes sociais um vídeo em que o presidente da Guiana, Mohamed Irfaan Ali, contesta vivamente o jornalista inglês Stephen Sakur, da BBC.
Após ser questionado de forma incisiva sobre os impactos atmosféricos da produção de petróleo e gás do seu país – cujas recentes descobertas já ultrapassam os 11 mil milhões de barris –, o mandatário guianense confrontou o entrevistador, dando uma lição sobre o que chamou de “hipocrisia dos europeus”.
Segundo ele, o mundo tira proveito, sem pagar nada, da floresta que o seu país manteve de pé, capaz de armazenar 19,5 gigatoneladas (Gt) de carbono. “Vocês destruíram o meio ambiente [os britânicos] através da Revolução Industrial e agora vêm dar-nos lições?”, questionou. Ali afirmou ainda que não será o Greenpeace “a fazer investimentos para superar a pobreza”.
Mesmo nós, europeus, caímos de joelhos perante o duro golpe da eclosão do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, em fevereiro de 2022, que fraturou ainda mais o tabuleiro geopolítico e desestruturou os mercados globais de energia. Sem o petróleo e gás russos, a União Europeia (UE) colocou a segurança climática em xeque.
Entrou em cena a segurança energética, que passou a ditar os termos da sobrevivência económica. Como efeito imediato da escalada dos preços da energia, a espiral inflacionária iniciada durante a pandemia intensificou-se. por As nossas indústrias de cá, o Velho Mundo, perderam competitividade.
Sem hesitar, a Alemanha renunciou à Energiewende (ou “viragem energética”) e reativou centrais nucleares e térmicas a carvão, mesmo sob uma chuva de protestos de grupos ambientalistas. Em 2023, o país tornou-se a economia desenvolvida com o pior desempenho do mundo, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Sem o abundante (e barato) gás russo, o modelo industrial alemão ficou gravemente afetado. Para se ter uma ideia, a Basf, maior empresa química do mundo, anunciou uma vaga de despedimentos, cortes nos investimentos e reestruturação das suas divisões de negócio, demonstrando como a crise energética pode propagar-se.
A política energética alemã, aliás, cometeu um duplo erro: por um lado, apostou no gás russo como fiador da sua segurança energética e, por outro, o Tribunal de Contas Federal da Alemanha (Bundesrechnungshof) denunciou o elevado custo da eletricidade proveniente de fontes renováveis, que não considerava a “confiabilidade e acessibilidade”.
O caso aqui na Europa ilustra a importância estratégica da energia e as disputas para garantir o seu acesso. Nas mãos dos russos, o gás tornou-se, sobretudo, um instrumento económico de chantagem e negociação com os vizinhos europeus. Estes, por sua vez, impuseram sanções à energia russa como forma de a penalizar pela agressão à Ucrânia.
Por estarem interligados, o aquecimento global e a oferta de energia adquiriram uma forte conotação política. À conhecida “geopolítica da energia” soma-se a crise climática e, esta última, por sua vez, torna-se um elemento central nas relações internacionais, determinando maior ou menor cooperação entre os países e o jogo dos interesses soberanos.
Os relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas) alertam para a progressiva deterioração dos padrões climáticos. Mas enquanto ninguém assumir a responsabilidade de quem pagará a conta da transição energética, o “caldeirão planetário” continuará a ferver, com ondas de calor, retração de glaciares, inundações, secas, ciclones tropicais e incêndios florestais.
Em 2015, o Acordo de Paris anunciava um fundo ambiental de 100 mil milhões de dólares, que deveria estar operacional em 2020. Isso não se concretizou. Até hoje, não existem mecanismos para financiar os países em desenvolvimento. Nessas condições, é impossível que uma nação com uma população à beira da miséria deixe de produzir petróleo e abdique da riqueza gerada.
Em pleno século XXI, a escassez de energia assemelha-se à miséria. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), em 2020, 10% da população mundial não tinha acesso à eletricidade, e os mais afetados eram os mais pobres. Quase três mil milhões de habitantes não dispunham de um combustível moderno para cozinhar refeições; usavam lenha ou algo pior.
Quanto mais pobre, mais vulnerável uma nação estará perante as alterações climáticas. O IPCC estima que até 3,6 mil milhões de pessoas vivem em regiões altamente suscetíveis aos seus impactos. A pandemia não ajudou: segundo a Oxfam, em 2022, a pobreza extrema cresceu pela primeira vez em 25 anos, atingindo quase mil milhões de indivíduos.
Diferentemente das transições anteriores (como o domínio do fogo, a domesticação de plantas e animais e o uso dos combustíveis fósseis), a transição energética atual precisará conciliar, na equação, os custos climáticos e econômicos para que as contas se fechem.
O petróleo como fonte de financiamento da transição
Não existe outra indústria capaz de criar tanto valor como a de petróleo e gás ao longo dos próximos vinte a trinta anos. Além disso, em alguns países em desenvolvimento, o petróleo continuará a ser a única fonte de rendimento. O desafio será sempre: como financiar o futuro sem recursos não renováveis?
Estatais ou privadas, as grandes petrolíferas registaram lucros históricos nos seus balanços contabilísticos nos anos seguintes à pandemia, com a subida do preço do barril de petróleo. Embora confrontadas com a transição energética em curso, estas empresas ainda são capazes de obter lucros muito acima do normal.
Elas parecem estar longe de perder a posição que detiveram durante todo o século passado. Isto porque o valor gerado pelo petróleo continua a multiplicar-se ao longo de uma extensa cadeia de atividades. A cada etapa da cadeia, a cada transformação e movimentação do petróleo, adiciona-se valor à mercadoria e, no final, a soma é sempre muito significativa.
O que interessa é a repartição desta renda excedente, cujos beneficiários são essencialmente dois: as empresas e o fisco. Na Arábia Saudita ou no Kuwait, 90% da renda líquida são recolhidos em impostos e encargos na “boca” do poço. No Reino Unido ou na Dinamarca, por sua vez, mais de 80% do preço do combustível automóvel são tributos.
No século passado, tanto em países exportadores como em grandes importadores, a renda petrolífera foi crescentemente apropriada pelo Estado para financiar as despesas públicas. Em alguns países onde as exportações ganharam importância, foram criados fundos soberanos, que guardam o excesso de moeda estrangeira proveniente das vendas de petróleo e gás ao exterior.
O resultado provável da entrada massiva de dinheiro seria a valorização da moeda local, o encarecimento da produção nacional e, em última instância, a desindustrialização do país. O processo ficou conhecido como a “doença holandesa”. A sua versão mais antiga era denominada “mal da abundância” e explica a efemeridade da fortuna gerada pelos ciclos extrativos.
“Os fundos soberanos resolvem, então, o problema macroeconómico do excesso da renda petrolífera e, ao mesmo tempo, financiam uma ponte para o futuro”, afirmou o economista Luís Eduardo Duque Dutra, autor de Capital Petróleo: a saga da indústria entre guerras, crises e ciclos, à reportagem.
Segundo ele, a capacidade financeira soma-se à noção de justiça ambiental e climática. “É indiscutível a quem cabe a responsabilidade pelo dano ambiental e pelo aquecimento em curso. O ónus deve ser imputado àqueles que se beneficiaram e que, hoje, detêm o capital, os bens materiais e pecuniários, e não à maioria da população do planeta, como está colocado atualmente”, diz Dutra.
Nesse sentido, a pressão da sociedade civil já obriga as petrolíferas tradicionais a reposicionarem as suas marcas e portfólios. Em 2021, a litigância climática fez da Shell a primeira “vítima” do sistema judicial, após o Tribunal Distrital de Haia, nos Países Baixos, determinar a redução de 45% das suas emissões líquidas de CO₂ até 2030.
Numa ação movida por um consórcio de organizações não-governamentais, a empresa foi declarada culpada por contribuir para a crise climática. Meses após a decisão, a Shell, até então anglo-neerlandesa, transferiu a sua sede para o Reino Unido e retirou o Royal Dutch do seu nome, marca que detinha desde 1907.
Em contrapartida, o maior fundo de pensões estatal neerlandês, o ABP, desfez-se de mais de 15 mil milhões de euros em ações que detinha na Shell. Alegaram que não investiriam mais em negócios ligados a combustíveis fósseis, numa demonstração clara de como a questão climática já influencia o comportamento dos agentes do mercado financeiro. O curioso é que a Shell é uma das pioneiras da transição energética. A empresa investe milhares de milhões de dólares em tecnologias de baixo carbono, como carregamento de veículos elétricos, energia renovável, biocombustíveis e hidrogénio, mas isso não parece ter sido suficiente para a poupar da decisão judicial desfavorável.
O facto é que, apesar da “demonização” da imagem das petrolíferas, são elas que detêm a capacidade financeira e o know-how tecnológico para liderar o processo que envolve a assunção de riscos, o desenvolvimento tecnológico e os investimentos necessários para levar adiante a transformação energética global.
Por isso, estas estão a transformar-se em empresas integradas de energia. Antes, as suas operações eram verticalizadas, dos poços de petróleo aos postos de combustível; agora, estendem-se até os postes de eletricidade, com investimentos em energias renováveis.
Como se vê, os eletrões integram-se às moléculas nas suas estratégias e negócios.
É incontestável que as empresas europeias lideram este movimento. A Shell (Reino Unido), a TotalEnergies (França), a Equinor (Noruega) e a Galp (Portugal) já investem em centrais solares, parques eólicos e projetos-piloto de hidrogénio verde (H₂V).
Constata-se que a transição já foi iniciada, mas ainda há um longo caminho pela frente. Por enquanto, não estão claras as trajetórias e as rotas tecnológicas que vingarão. Também não se definiu como serão financiados os investimentos, embora já se saiba quem são os principais emissores de gases e que uma parte do excedente petrolífero pode muito bem servir para isso.
O desafio de P&D
Na “corrida pelo futuro”, a inovação tecnológica é um fator crucial para acelerar a mudança. É do ciclo da “destruição criativa” schumpeteriana que advém o progresso económico, impulsionado pelos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, políticas governamentais (incentivos, subsídios e regulamentações), capital de risco e modernização das infraestruturas.
A expectativa é que, por volta de 2050, sejam removidas 37 Gt entre as 54 Gt emitidas atualmente. Cerca de 75% serão removidas graças à eletrificação, maior eficiência e ampliação das renováveis. A expansão da cobertura vegetal, a produção de bioenergia e a introdução do H₂V deverão responder pelo restante das emissões capturadas e evitadas até lá.
O que diferencia o alcance das tecnologias é o estágio de desenvolvimento e maturidade. De facto, a maioria encontra-se distante da viabilidade comercial. No melhor dos casos, a entrada é esperada em certos nichos. O gargalo é o financiamento da pesquisa, uma vez que o aporte de capital é elevado e arriscado, criando um ambiente que afasta os investidores privados.
Entre as novas fontes de energia, as únicas que corresponderam às expectativas foram a eólica e a solar. Nos últimos vinte anos, com o avanço das gigantescas torres eólicas e dos painéis fotovoltaicos, o custo da geração elétrica caiu dez vezes e se viabilizou em termos comerciais.
Todas as demais novas fontes, objeto de intensa investigação, entretanto, ainda não experimentaram o mesmo êxito. No caso do H₂V e da captura direta de CO₂, por exemplo, não existem projetos industriais em operação, o que é previsto para o início da década de 2030.
A eletrificação dos processos e a eficiência também não conheceu a necessária aceleração. Nas últimas quatro décadas, a taxa de eletrificação aumentou apenas de 10% para 20% (2% ao ano).
Até mesmo os biocombustíveis, que avançaram consideravelmente durante a primeira década do século XXI, sofreram uma forte perda de velocidade devido à retração dos investidores. Entre 2004 e 2012, o setor estava em plena expansão no mundo todo, com investimentos superiores a US$ 10 bilhões por ano.
Em 2006 e 2007, os investimentos chegaram a US$ 25 bilhões por ano, abrangendo não apenas o álcool combustível e os biodiesel convencionais, mas também os biocombustíveis de segunda e terceira geração. Este foi o auge dos investimentos em biotecnologia aplicada à energia, com os EUA e o Brasil no pódio.
A falta de ganhos de produtividade do trabalho e de rendimentos dos processos, aliada a um ambiente económico cada vez mais desafiador e à queda do preço do petróleo, reverteu as expectativas depositadas na bioenergia. A partir de 2015, os investimentos despenharam-se, não ultrapassando US$ 4 bilhões por ano.
Quase vinte anos depois da ascensão do bioetanol e do biodiesel, que deram projeção global à indústria, ainda há incertezas sobre o papel que os mesmos terão na descarbonização. Isto ocorre apesar de as fábricas instaladas responderem por 3,5% do consumo de energia dos transportes no mundo.
Diante da variedade de alternativas, da imprevisibilidade da investigação científica e dos riscos que envolvem o processo de inovação, a urgência que as mudanças climáticas impõem é um grave complicador. No mínimo, a consequência é o acirramento da competição por recursos para pesquisa, normalmente limitados em razão da aversão ao risco do investidor.
No atual estágio de desenvolvimento, as rotas tecnológicas serão submetidas à seleção pelo mercado. Esta tem o mérito de ser simples e objetiva: vence quem oferecer o menor custo.
Nos próximos vinte anos, o desafio do Estado será acelerar a transição energética, promover a mudança das estruturas e estimular novas condutas, tanto das empresas quanto das famílias.
Só quase vinte anos depois da primeira oportunidade do bioetanol e do biodiesel, que se deu amplitude planetária à indústria, perdura-se a dúvida sobre o papel que eles terão na descarbonização.
A construção do sistema energético não foi marcada somente pela sequência de recursos fósseis (carvão, petróleo e gás natural, nesta ordem), mas sobretudo pela diversificação.
E o tal do hidrogénio?
A classificação do hidrogénio por cores procura diferenciar a origem, as emissões e a sua remoção. O hidrogénio castanho deriva do carvão, sendo produzido pela sua gaseificação, e, por quilo de hidrogénio, as emissões são as maiores entre todos, até 19,5 kg de CO2 equivalente (kgCO2e). Sem dúvida, não é parte da solução. O hidrogénio turquesa, por sua vez, deriva do gás natural, da sua pirólise, um processo em que não ocorre combustão, nem emissão alguma. O dióxido de carbono transforma-se em negro-de-fumo, mas a tecnologia ainda não passou da fase demonstrativa. O hidrogénio cinzento também deriva do gás natural e, neste caso, é produto da sua reforma por vapor ou da reforma autotérmica. Ambas têm elevadas emissões: entre 9 e 11 kgCO2e por quilo de H₂ na primeira rota e 9 kgCO2e na segunda.
Sem dúvida, para produzir hidrogénio descarbonizado, a aposta é na rota electroquímica, pela electrólise. A tecnologia dispõe de inúmeras aplicações e importância em sectores estratégicos, como produção de cloro e sódio, refinação do alumínio e do cobre, galvanização de peças metálicas e protecção contra corrosão. O que pode surpreender, mas ilustra o desafio do momento, é que essa rota ainda é completamente marginal na produção para fins energéticos.
Existe ainda o hidrogénio azul, que tem origem em unidades convencionais abastecidas por gás natural e, algumas vezes, até por carvão. A essas unidades são acoplados sistemas de captura, uso ou armazenamento das emissões de carbono. As emissões não são eliminadas, mas as tecnologias em teste conseguem expressivas reduções. Para cada quilo de hidrogénio, são emitidos entre 0,9 e 2,5 kgCO2e na reforma a vapor e, pela rota da reforma autotérmica, entre 0,5 e 1,35 kgCO2e.
A realidade do mercado está longe da situação almejada. Em 2023, o hidrogénio cinzento e marrom correspondiam a 96% da oferta da matéria-prima. Uma parcela restante, 3%, correspondeu aos primeiros projetos de fabrico de hidrogénio azul em operação. Por fim, uma parcela bem residual e experimental, apenas 1%, coube à electrólise e ao H2V.
Este hidrogénio pode vir a ser a solução de conversão e armazenamento, desde que a sua fabricação seja suprida por energia renovável e combinada à intermitência desta. Contudo, em razão do custo da electricidade para obter H2V e do custo da remediação das tecnologias existentes no caso do sequestro do carbono, ambas têm participação marginal na oferta existente hoje. Este gás hidrogénio, de facto, não está disponível no mercado.
Cabe reforçar que a vantagem das rotas com origem nos combustíveis fósseis permanece absoluta. O custo de fabrico do hidrogénio cinzento ou castanho é inferior a US$ 1 por quilo. A partir da electrólise e pagando preços módicos pela electricidade, o H2V será sete vezes mais caro. Não é diferente o sobrecusto de se “azular” o hidrogénio com o sequestro do carbono nas refinarias.
Nestes dois casos, enfim, os projetos em operação ainda são protótipos ou usinas demonstrativas.
O que o futuro nos reserva?
Desde o advento da Revolução Industrial no século XVIII, a crescente diversificação da matriz energética marcou a história económica recente. O progresso fabril iniciou-se com o uso dos combustíveis fósseis e, durante o século passado, ocorreu a diversificação das fontes e a ampliação de diferentes cadeias produtivas (eletroquímica, nuclear, bioquímica, eólica, solar, etc.). O atual balanço energético resulta, assim, da combinação das mais diferentes fontes.
Quanto à matriz energética, trata-se essencialmente da adição de novas cadeias produtivas e rotas tecnológicas, um processo de empilhamento acumulativo. Em algumas ocasiões, aconteceu a substituição, mas raramente a exclusão completa de uma opção que, na maioria das vezes, teve seu processo de conversão aperfeiçoado e seu rendimento melhorado.
A construção do sistema energético não foi marcada apenas pela sequência de recursos fósseis (carvão, petróleo e gás natural, nesta ordem), mas sobretudo pela diversificação. Tudo indica que a transição para uma economia de baixo carbono seguirá essa tendência, apoiada num amplo leque de tecnologias.
Existem diversas rotas promissoras, mas nenhuma está pronta para justificar o abandono dos ativos em operação pelas petroleiras. Até a electrificação da frota de veículos ligeiros tem-se revelado mais desafiadora do que o previsto. E enfrentar o aquecimento global requer urgência na tomada de decisões, enquanto o ambiente de incerteza em nada favorece os investidores.
Não faltam retrocessos em escala global, como a queda dos investimentos em biocombustíveis, a retoma da geração a carvão e a falta de definição sobre os mecanismos de financiamento. Pelo contrário, o risco de desenvolver tecnologias e financiar a investigação científica soma-se à volatilidade dos preços da energia e à estagnação secular que ronda o capitalismo.
O agravante é que existe a percepção de crise nos organismos multilaterais e na governança mundial, que antecederia o iminente fracasso da cooperação internacional. Definitivamente, não é neste ambiente, muito perto da plena desordem e sem uma resposta pronta ao desafio climático, que se encaminhará a transformação para uma economia de baixo carbono.
Para descarbonizar a economia, precisaremos diminuir o uso dos combustíveis fósseis, que ainda respondem por 80% da energia consumida; aumentar a participação das fontes renováveis; incrementar a eficiência energética; electrificar os processos e a mobilidade; produzir hidrogénio sem emissões; capturar CO2 directamente da atmosfera ou à saída dos processos; e produzir bioenergia.