O jogo da Espera – A arte de Procrastinar à velocidade da luz
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O jogo da Espera – A arte de Procrastinar à velocidade da luz

Os especialistas em alto desempenho sabem que, quer no desporto como na vida, saber instintivamente quando fazer uma pausa, nem que seja apenas por uma fração de segundo é fundamental para a tomada de uma boa decisão.

O ténis sempre foi um desporto rico no estudo e em termos de comparação e correlação com o mundo corporativo de elite, e são muitas as evidências que corroboram os conselhos do livro clássico escrito por Timothy Gallwey, The Inner Game of Tennis: The Classic Guide to the Mental Side of Peak Performance, publicado em 1972. O livro vendeu mais de um milhão de cópias e nunca ficou fora de catálogo. Talvez porque a sua premissa principal – que você precisa sair do seu próprio caminho – não é apenas uma chave atemporal para o melhor desempenho no campo de jogo, mas também fora dele. Mas o que é especialmente fascinante é que mais de 40 anos após o lançamento do livro, a ciência emergente apoia quase todos os seus insights, muitos dos quais, como prosperar em tempos turbulentos.

Contudo, foi ao ler um artigo de Frank Partnoy, publicado no Financial Times (já em 2012), chamado Waiting game: what tennis teaches us” onde o autor escrevia sobre Novak Djokovic e afirmava que “ A sua vantagem sobre os outros profissionais de Wimbledon não era a sua agilidade ou resistência ou mesmo o seu sentido de humor. Em vez disso, a chave para o seu sucesso era a sua capacidade de esperar apenas alguns milissegundos a mais do que os seus oponentes antes de bater na bola. Aquele pequeno atraso é a razão pela qual a maioria dos jogadores não terá qualquer chance contra ele. Djokovic vence porque pode procrastinar – à velocidade da luz”, fez-me voltar a correlacionar o mundo do ténis com a nossa vida profissional e pessoal.

Os especialistas em alto desempenho sabem que, quer no desporto como na vida, saber instintivamente quando fazer uma pausa, nem que seja apenas por uma fração de segundo é fundamental para a tomada de uma boa decisão. O mesmo se aplica em períodos mais longos: todos sabemos (ou devíamos saber) quando esperar alguns segundos extra para contar uma piada, ou quando saber esperar uma hora inteira antes de fazer um julgamento sobre outra pessoa.

Hoje em dia parece que não temos tempo para nada, muito menos para pensar.

Somos seres que reagimos aos estímulos externos de rajada e sem nenhuma reflexão antes dessa reação, a maioria de nós tende a reagir muito rapidamente. A tecnologia que nos rodeia, acelera-nos. Reagimos exageradamente rápido, tanto no trabalho como em casa.

No entanto, os bons “gestores do tempo” (ninguém gere o tempo, gerimos sim, aquilo que se faz com ele) parecem estar mais à vontade parando o tempo que for necessário antes de agir, mesmo diante das decisões mais urgentes. Alguns parecem até retardar o tempo. Para os melhores decisores, tal como os melhores jogadores de ténis, o tempo é mais flexível do que um relógio atómico.

Num jogo de ténis, um serviço pode atingir a velocidade 160 km/h (alguns ainda mais), isso significa que o adversário tem 400 a 500 milissegundos para reagir a partir do momento em que a bola deixa a raquete do seu oponente até atingir a sua. Acertar numa bola de ténis em apenas meio segundo, e ainda por cima definir toda uma estratégia para onde se quer colocar a bola no campo adversário a essa velocidade é um ato paradoxal, pois por um lado é uma reação física inconsciente resultado de muitos anos de treino, mas por outro lado, esta decisão envolve uma gama de respostas sofisticadas e criativas.

Os bons jogadores de ténis são especialistas a responder à cascata de informações de uma bola que chega, como se tivessem tempo suficiente para processar toda essa informação de uma forma consciente, embora saibamos que isso não é possível.

Contudo, Novak Djokovic liberta tempo para se preparar durante a fase chamada de “identificação da bola”. “É quando ele absorve o esmagamento de dados gerados depois que a bola sai da raquete do seu oponente. Divide o tempo disponível entre o lançamento da bola e o seu retorno; por ser muito rápido, tem tempo extra para recolher e processar informações. Finalmente, no último instante possível, compromete-se com a sua escolha”.

Como precisa de menos tempo para reagir, tem mais tempo para reunir e processar as informações. “Ele vê, prepara e, finalmente, só depois de processar tantas informações possíveis, ele bate. A sua gestão de tempo pré-consciente e a sua capacidade extraordinária de atrasar, permite que estique uma fração de segundo fazendo com que tenha tempo para uma interpretação e consequente ação que levaria muito mais tempo para a maioria de nós”.

Segundo Frank Partnoy, “Warren Buffett compara a negociação de ações com os grandes atletas: destacam-se, não por causa de respostas neurológicas rápidas, mas por causa da sua capacidade de atrasar o máximo possível antes de reagir. CEOs, bombeiros e oficiais militares bem-sucedidos sabem como gerir estes atrasos para reunir o máximo de informações possível e obter os resultados de que precisam”.

Em suma, as decisões, sejam ‘instantâneas’ ou de longo prazo, beneficiam de serem tomadas no último momento possível. A arte de saber esperar antes de se comprometer, está no cerne de muitas decisões importantes, seja numa aquisição corporativa ou numa proposta de casamento. Partnoy demonstra que a capacidade de esperar é crucial para obter a resposta certa e que o instinto muitas vezes está errado.

Artigo de Rui Silva, Autor – MIT Technology Review Portugal

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